Moradores de rua: abrigo prometido para março não sai do papel

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De acordo com censo realizado em 2017 – segundo a Prefeitura de Fortaleza, o último sobre o assunto – a Praça do Ferreira soma aproximadamente 250 pessoas em situação de rua. O número equivale a mais de 10% do total da população fortalezense sem um local para morar – o Censo ProRua 2015, desenvolvido pela extinta Secretaria Municipal de Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra) e o mais recente abrangendo a cidade como um todo, aponta que a Capital possui em torno de 1.700 desabrigados.

Embora o cenário local chame atenção para a necessidade de priorizar medidas sociais que modifiquem o quadro, ações locais não são escoadas a fim de resolver, ou pelo menos amenizar, o problema. Ao se analisar relatório de 2007 divulgado pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), é possível perceber que em menos de uma década houve crescimento de mais de 50% do número de pessoas nessa condição.

Uma das iniciativas com potencial para essa reversão é a entrega de abrigo no Centro, anunciado ano passado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza (PMF). Pensado para comportar até 250 pessoas, o espaço seria inaugurado em março deste ano, mas até o momento não existe expectativa de quando ele será apresentado.

Em nota, a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHS), atual responsável pelas ações para essa população, informou que o abrigo segue “ainda sem previsão, pois o local anterior foi barrado por conta da documentação do proprietário do prédio”. “A Prefeitura em breve anunciará um novo local. A PMF precisa de um prédio que atenda todas as exigências para esse público.”, informou a nota.

A atual condição de vulnerabilidade de um jovem de 22 anos, que pediu para não ser identificado, poderia ser diferente caso o abrigo tivesse sido entregue. “Estou aqui há dois anos. Eu morava no Barroso e, como me envolvi com o crime, fugi de casa para meus pais não terem esse desgosto”, explica ele, que cursou até o 1º ano do Ensino Médio. O envolvimento com as drogas e com o crime chegaram à sua vida aos 18 anos.

De perfil diferente, mas na mesma condição, um aposentado de 60 anos está na Praça do Ferreira desde 2014. Ex-militar, ele decidiu sair de casa após a morte da esposa. “Tenho dois filhos e já sou avô, mas eles não sabem que moro na rua. Melhor assim. Meus irmãos, de vez em quando, vêm por aqui”. Carinhosamente chamado de “pai” pelos companheiros do lugar, ele diz que gasta parte da aposentadoria que recebe com bebida alcoólica. Segundo ele, a maioria da população em situação de rua do local é flanelinha ou, como ele chama, mangueador (pedinte). “Esta praça, minha filha, é de todos.”

Professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), William Lopes explica que o motivo mais comum a levar uma pessoa à situação de rua é a quebra do vínculo familiar que, de acordo com o acadêmico, ocorre na maioria das vezes por causa do uso de entorpecentes.

“Alguns vivenciaram situações de conflito com a família ou na comunidade onde moravam, e outros ficaram impossibilitados de retornar. Muitas pessoas também estão em situação de rua por não terem emprego, nem condições de garantir uma vida digna. Contudo, elas não vivenciam esta situação somente por causa de conflitos, mas também porque muitas, em determinado momento de suas trajetórias, tomaram a rua como seu lugar e desenvolveram uma rede de sociabilidades que as levam a suportar as vulnerabilidades que enfrentam”.

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O sociólogo argumenta que, em geral, o poder público demonstra preocupação com pessoas nessa condição, mas que as ações realizadas por ele são paliativas.

William diz que, em geral, cidades com maior índice de desigualdade social e aquelas densamente povoadas possuem maior população em situação de rua. “A cidade de Fortaleza é um desses casos. O caso das pessoas que ocupam a Praça do Ferreira é emblemático para mostrar as consequências da desigualdade social, da péssima distribuição de renda que a cidade enfrenta, bem como da falta de instituições de proteção social.”

 

NÚMEROS

102

mil brasileiros maiores de 18 anos estão em situação de rua, segundo o Ipea

 

1,7

mil pessoas vivem em em situação de rua em Fortaleza, segundo a Prefeitura

 

Fonte: O Povo Online